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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012 - A(s) Melhor(es) Leitura(s)

Trilogia Millennium - Os Homens que Odeiam as MulheresA Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, de Stieg Larsson.

Outras leituras de 2012

domingo, 30 de dezembro de 2012

Cafuné

Título original: Cafuné
Género: Romance
Autor: Mário Zambujal
Ano: 2012

Sinopse: Cafuné centra-se na figura de Rodrigo Favinhas Mendes, um bom malandro que não resiste aos encantos femininos e que se torna amigo de um ex-frade, Frei Urbino de Santiago, que acaba por ser o seu conselheiro e zelador espiritual. É que Rodrigo tem um coração gigante onde cabem muitas mulheres bonitas, dispostas a um carinho que ele é incapaz de recusar… (in Wook)

Frei Urbino Santiago é um frade, sujeito a uma educação religiosa muito feroz. Nos dias que correm, vive sozinho após ter abandonado o mosteiro. Rodrigo Favinhas Mendes é um jovem engatatão e que está constantemente a meter-se em sarilhos por causa das mulheres alheias com quem se mete. A fugir de um destes sarilhos, encontra o Frei que convida-o a viver com ele.
Rodrigo Favinhas Mendes não resiste a uma mulher, mas tem um objectivo bem traçado: quer trabalhar, nem que seja por uma semana, na corte da princesa Carlota. Até lá, mulheres como Dália ou Lucrécia farão as delícias do jovem.

- Você gosta mesmo?
- Se gosto? Essa festinha põe-me maluco!
- Cafuné. A gente chama de cafuné.
Rodrigo lembrou-se então das artes de Dália, mestra de cafuné, ignorando que fazia cafuné.
(extracto retirado da pág. 224)

Frei Urbino Santiago representa a castidade e a pureza, o tipo de homem que vira a cara quando vê um decote; Rodrigo Favinhas Mendes é o oposto, um rapaz sem vergonha que não só não tira os olhos do decote como chama a atenção dos outros.

Com a história de Portugal como pano de fundo, através do reinado de D.João IV e toda a sua fuga para o Brasil quando da chegada de Bonaparte, Zambujal tece as histórias de Frei Urbino, Rodrigo Favinhas, aias belas a atrevidas, reis, raínhas e princesas e mulatas brasileiras que também fazem cafuné, mas têm um nome para isso.

Num estilo semelhante ao Crónicas dos Bons Malandros, Zambujal conta não apenas a história de um Frei sem mosteiro e um jovem encantado pelas mulheres, mas também de um reino à beira do colapso e fá-lo através de uma narrativa simples, despretensiosa e cheia de humor.

Embora tenha gostado, continuo a preferir Crónicas dos Bons Malandros.
(3/5)

sábado, 29 de dezembro de 2012

O Vale das Bonecas

Título original: Valley of the Dolls
Género: Romance
Autor: Jacqueline Susann
Ano: 1966

Sinopse: Anne, Neely e Jennifer são três jovens fortes, independentes e com muita sede de viver. Mas quando os sonhos da vida se despenham contra os rochedos da desilusão , precisam de algumas «bonecas» -comprimidos calmantes, excitantes, ansiolíticos ou opiáceos - para sobreviver…
Anne: ingénua e doce, mas ansiosa por descobrir tudo o que a vida tem para oferecer… Neely: um espírito rebelde. Órfã desde a mais tenra idade, só ambiciona uma coisa na vida - rios de dinheiro! Jennifer: com um corpo de fazer parar o trânsito, este imã sexual só deseja uma coisa - casar e assentar.
Amor, traição, desejo e dependência são retratados em toda a sua crueza neste romance inesquecível, considerado um clássico da literatura norte-americana. (in Wook)

A peça O Céu é o Limite é a responsável por fazer com que o destino das três jovens, com personalidades e passados distintos, se cruzasse. A fugir de uma vida planeada por outros, a perseguir um sonho ou simplesmente à procura de uma vida melhor, Anne, Neely e Jennifer encontraram-se em New York, decorria o ano de 1945.
Menina do interior, Anne Welles deixou Lawrenceville e um casamento arranjado e trabalha agora numa agência que representa alguns dos actores mais famosos da BroadwayNeely O'Hara começa a dar os seus primeiros passos como actriz na Broadway, onde também trabalha a Jennifer North que tem em beleza o que não tem em talento.
A história de três jovens que se fizeram mulheres, em cena de 1945 a 1965.

Anne pegou novamente no guião. Dentro de poucos meses, ele falaria outra vez no assunto, e outra vez a conversa terminaria daquela maneira. Kevin sentia-se culpado por não casar com ela, mas Anne já não se incomodava com isso. Talvez já fosse tarde de mais para pensar em filhos. E um papel assinado não era garantia nenhuma de fidelidade nem de felicidade: bastava pensar em Jennifer. E na coitada da Neely. 
(extracto retirado da pág. 331)

Devido à janela temporal da história, estamos a falar de aproximadamente 20 anos, o leitor tem o privilégio de acompanhar o crescimento ou, muitas vezes, a falta dele, destas três mulheres e poder assim presenciar as várias fases das suas vidas. Do anonimato ao estrelato, as três passam de simples mulheres bonitas à conquista do sonho, a famosas desejáveis e cujas histórias fazem capas ou ocupam as páginas centrais dos jornais e revistas.

Jacqueline Susann criou em Anne, Neely e Jennifer, três mulheres fortes, capazes, apaixonadas, sensíveis e, ao mesmo tempo, frágeis e dependentes. As protagonistas são mulheres capazes de tudo para conquistarem aquilo que querem, mas que estão vulneráveis a dependências como o amor, através da entrega sem limites ao sexo oposto, a beleza, através das dietas e operações plásticas, e as drogas, como solução para esquecer os problemas por umas horas.

A escrita é simples e a leitura fluí naturalmente. Em cada capítulo uma das protagonistas assume o papel de narradora e conta a história no seu ponto de vista. A acção vai decorrendo ao longo dos anos, com passados e segredos a serem desvendados à medida que a narrativa avança.

Uma história doutros tempos, mas que pode muito bem ser aplicada aos dias actuais.
(4/5)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Amante

Título original: L'Amant
Género: Romance
Autor: Marguerite Duras
Ano: 1984

Sinopse: Saigão, anos 30. Uma bela jovem francesa conhece o elegante filho de um negociante chinês. Deste encontro nasce uma paixão. Ela tem quinze anos e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico. Os amantes, isolados num mundo privado de erotismo e autodescoberta, desafiam as convenções da sociedade. Enquanto ela desperta para a possibilidade de traçar o seu próprio caminho no mundo, para o seu amante não há fuga possível. A separação é inevitável e tragicamente cadenciada pelos últimos acordes da presença colonial francesa a Oriente. A jovem é a própria autora e este é o relato exacerbado de uma paixão inquieta e dilacerante. De tão etérea, a sua realidade gravar-lhe-ia no rosto marcas implacáveis de maturidade. Para o mundo, fica uma obra que contém toda a vida. Obra intemporal, relato de um mundo perdido, O Amante foi vencedor do prestigiado Prémio Goncourt, em 1984, e confirmou o génio literário de Marguerite Duras, nome cimeiro da literatura mundial. (in Wook)

Membro de uma família de colonos falidos da Indochina francesa, a protagonista descobre, aos 15 anos de idade, a paixão e o sexo nos braços de um homem com o dobro da sua idade. Não desfazendo a enorme diferença de idade, este não era o único entrave a esta relação. O objecto da sua repentina paixão é chinês e abastado.
Uma relação que conta com a benção e provação da mãe da jovem, mas sujeita a ser vivida longe dos olhares alheios, tendo apenas espaço para acontecer dentro das quatro paredes do quarto de uma pensão.

Nunca bom dia, boa noite, bom ano. Nunca obrigado. Nunca falar. Nunca necessidade de falar. Tudo fica mudo, longe. É uma família de pedra, petrificada numa espessura sem qualquer acesso. Todos os dias tentamos matar-nos, matar. Não só não falamos como não nos olhamos. A partir do momento em que somos vistos, não podemos olhar. Olhar é ter um movimento de curiosidade para, por, é descer. Nenhuma pessoa olhada vale o olhar sobre ela.
(extracto retirado da pág. 60)

Autobiográfica e ficcional, o foco central deste livro é retratar a história de amor e sexo entre a autora, enquanto adolescente, e um homem mais velho. Para além do tema principal, Marguerite Duras ainda leva-nos a conhecer algumas particularidades da sua família, representada pela mãe e pelos dois irmãos. Com base numa dinâmica familiar estranha, o retrato de família mostra uma relação fria e distante, onde a mãe tende sempre em apoiar o filho mais velho em detrimento dos outros dois.

O livro tem poucas páginas, mas a leitura exige muita atenção devido aos sucessivos avanços e recuos na narrativa. A escrita é, de certa forma, poética, onde não faltam cenas fortes que retratam sentimentos como tristeza ou revolta, e uma boa dose de erotismo, através das cenas em que ela se entrega ao homem por quem está apaixonada e descobre o sexo, a sexualidade e os prazeres do corpo.

Uma leitura para ser saboreada com calma e muita atenção...
(4/5)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Deus das Pequenas Coisas

Título original: The God of Small Things
Género: Romance
Autor: Arundhati Roy
Ano: 1980

Sinopse: "O Deus das Pequenas Coisas" é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de muitas histórias. A histórias dos gémeos Estha e Rahel, nascidos em 1962, por entre notícias de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que ama de noite o homem que os filhos amam de dia, e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas. A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol. A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma, resignada a adiar para a eternidade o seu amor terreno pelo Padre Mulligan. Estas são as pequenas histórias de uma família que vive numa época conturbada e de um país cuja essência parece eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer. "O Deus das Pequenos Coisas" é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salmon Rushdie e García Márquez. (in Wook)

Estado de Kerala, Índia, durante os anos 60/70, numa altura em que alguns costumes europeus, como cinema ou forma de vestir, começam a misturar-se com costumes e tradições ancestrais, como o sistema de castas com os intocáveis na base da pirâmide e marginalizados pelos ditos "tocáveis".
Nesta história, encontramos três gerações da mesma família que vivem e convivem com esta sociedade que dá os primeiros passos para os novos tempos, mas ainda com uma ligação fortíssima aos velhos tempos.
As vivências e acontecimentos que acabam por entrelaçar a vida e o destino do núcleo central composto pelos gêmeos Estha e Rahel, a mãe Ammu, o amigo e intocável Velutha, a avó Mammachi, o tio Chacko, a prima Sophie Mol, a britânica Margaret e a tia-avó Baby Kochamma.

Ao contrário das práticas seguidas por multidões religiosas em alvoroço ou por exércitos conquistadores em tumulto, naquela manhã, no Coração das Trevas, o pelotão dos polícias Tocáveis actuou com economia e não frenesim. Eficiência, e não anarquia. Responsabilidade, e não histeria. Não lhe arrancaram o cabelo nem o queimaram vivo. Não lhe arrancaram os genitais nem lhos meteram na boca. Não o violaram. Nem decapitaram.
Afinal, não estavam a lutar contra uma epidemia. Estavam apenas a inocular uma comunidade para evitar um surto.
(extracto retirado da pág. 276)

No meio de uma sociedade cheia de tradições e diferentes modos de vida, o enredo fala de amores proibidos, através da peculiar e inexplicável ligação dos gêmeos Estha e Rahel, do relacionamento impossível entre um intocável e um tocável representado pelo amor de Velutha e Ammu, do eterno amor que a tia-avó Baby Kochamma escondeu toda a sua vida em relação ao Reverendo Mullingham ou da história de amor que não vingou entre o tio Chacko e sua britânica Margaret.

Um retrato real de uma sociedade onde podemos encontrar referências à religião, aos modos de vida de um povo que vive com as marginalizações sociais causadas pelas castas ou a violência perpetuada contras as mulheres devido ao seu estado civil ou à sua condição de ser obediente, sem no entanto esquecer o papel das fortes matriarcas que devido a desígnios do destino, como por exemplo a viúvez, acabam por tomar as rédeas das famílias.

Uma escrita onde não faltam figuras de estilo como a metáfora ou a personificação, mas também cheio de frase e pensamentos para reflexão. Se por um lado compreendo que se queira comparar a escrita de Roy com García Márquez, devido ao  realismo mágico, por outro, acho que as semelhanças tendem a ficar por aí.
Não consegui simpatizar com a escrita de Arundhati Roy e foram muitas as vezes que dei por mim a pensar que ela estava a ser muito pretensiosa e a cair, vezes sem conta, no exagero exacerbado e despropositado.

Um livro para ser lido sem ideias pré-concebidas.
(3/5)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Crónica dos Bons Malandros

Título original: Crónica dos Bons Malandros
Género: Conto
Autor: Mário Zambujal
Ano: 1980

Sinopse: "Sinto-me sequestrado por estes bons malandros". Aos livros que fui escrevendo, e outros que venha a escrever, não lhes valem possíveis méritos. Mais de trinta anos depois de saltarem à cena, sem outra pretensão do que fazer sorrir circunstanciais leitores, os bons malandros não arredam pé e ganharam a afeição de gerações sucessivas. Nada mais surpreendente, para quem lhes deu vida, esta longevidade que permite divertir jovens de hoje, tal como acontecera com seus pais e mesmo avós. Aqui se apresenta uma nova (e esmerada) edição de um livro que já galgou pelo cinema e pelo teatro e ameaça novos estrondosos cometimentos. Entretanto, o que o autor ambiciona é o mesmo de sempre: proporcionar prazer de leitura a quem se dispõe à descoberta das singulares aventuras destes bons malandros. Se eles vos divertirem, cumprem o seu destino." (in Wook)

Renato, Flávio, Marlene, Pedro, Silvino, Adelaide e Arnaldo são sete malandros que o destino fez questão de unir, em diferentes alturas de suas vidas, depois de terem sofrido algum tipo de rasteira do destino. Sempre a seguir a máxima de nunca usarem armas, os sete levam a vida a cometer "pequenos" delitos, dos quais conseguem sempre desenvencilhar-se com muita destreza, e que não lhes causam problemas a elaborar e/ou executar.
A fasquia sobre quando um italiano chega com uma proposta capaz de render o suficiente e arrumar as suas vidas para sempre. Mas será que assaltar a Calouste Gulbenkian não é dar um passo maior que a perna?

"E armas? Vamos para uma coisa dessas de mãos a abanar?"
"Vamos. Armas, não"
Estava decidido. Assaltariam a Gulbenkian à mão desarmada, golpe de audácia como nunca se vira, nem aqui nem em parte nenhuma. E os audaciosos de que falariam os telejornais seriam eles, Renato e Flávio, Marlene e Adelaide, Pedro, Silvino e Arnaldo, quadrilha seleccionada, encontro de sete vidas depois de muito tombo e aventura.
(extracto retirado da pág. 31)

Este livro foi-me oferecido na compra do Cafuné (que fiquei com muita curiosidade de ler), do mesmo autor, e como já tinha sido lido e recomendado pelo esposo, resolvi pegá-lo primeiro.

A obra pode ser dividida em duas partes: numa primeira parte, Zambujal apresenta-nos os seus "bons malandros", dá-lhes vida, cria-lhes passado, explica como ganharam as suas famosas alcunhas ou nomes de guerra, causa de algumas das inúmeras gargalhadas que soltei durante a leitura, e percorre os caminhos de cada um até se cruzarem com o resto da quadrilha; na segunda, temos o assalto à Gulbenkian propriamente dito, através do acompanhamento dos planos e estratégias, medos e convicções, avanços e recuos, desde o momento que recebem a proposta, passando pela sua execução e desfecho.

Uma história simples, repleta de humor e escrita de forma simples, clara e muito inteligente. Os personagens são cativantes, despretensiosos e provocam empatia devido às suas histórias de vida e à filosofia adoptada pelos membros da quadrilha. A certa altura, dei por mim a torcer por estes bons malandros e a querer que tudo lhes corresse bem.

Não sendo uma obra-prima, leva um quatro estrelas porque acabou por cumprir o prometido e só tenho pena que tenha tão poucas páginas.
(4/5)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Os Cadernos de Dom Rigoberto

Título original: Los cuadernos de don Rigoberto
Género: Romance
Autor: Mario Vargas Llosa
Ano: 1997

Sinopse: Mario Vargas Llosa ao criar em Os Cadernos de Dom Rigoberto um mundo de erotismo, sensualidade, desejo e paixão, transporta o leitor para todo um universo de sonho ousado e arrojado, criado pela imaginação fértil de um reservado corretor de seguros. Um livro que é a apologia perfeita do amor em estado puro. (in Wook)

Continuamos na pegada de Dom Rigiberto, da sua Lucrécia e do seu filho Alfonso. Depois deste ter descoberto a traição da esposa com o filho, expulsa-a de casa e ela passa a viver sozinha com a sua antiga empregada.
Alfonso começa a visitá-la, a mostrar-se a cada dia que passa mais arrependido e empenhado em fazer tudo para reunir o pai e a madrasta. Ciente das manhas do enteado, Lucrécia tem problemas em confiar em Alfonso, mas a cada visita, a madrasta vai percebendo as verdadeiras intenções e actos do pequeno Alfonso.

Percebo, minha senhora, que a variante feminista que representa declarou a guerra dos sexos e que a filosofia do seu movimento se apoia na convicção de que o clítoris é moral, física, cultural e eroticamente superior ao pénis, e os ovários, de mais nobre idiossincracia que os testículos.
(extracto retirado da pág. 64)

Actualmente a viverem em casas separadas, a conturbada história de romance, sexo e traição entre Lucrécia, Dom Rigoberto e Alfonso continua, tendo como principal espectadora a fiel e leal empregada da família.

Através das inúmeras cartas escritas por Dom Rigoberto, que não tem intenção nenhuma de enviar, o autor desenvolve a personalidade do personagem e mostra ao leitor mais sobre a sua vida e ideias, sobre assuntos relacionados com o individualismo e/ou as colectividades e associações. Durante o dia, Dom Rigoberto leva uma vida normal de homem separado e trabalhadior na área de seguros e, à noite, transcreve para os seus cadernos os mais fantasiosos contos sexuais, onde o papel principal está sempre reservado à sua eterna amada Lucrécia.

O sexo e a sensualidade feminina continuam muito presentes na figura de Lucrécia, na sua história de amor e nas fantasias sexuais com Dom Rigoberto e, porque não dizê-lo, com o pequeno enteado.
(3/5)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Elogio da Madrasta

Título original: Elogio de la madrastra
Género: Romance
Autor: Mario Vargas Llosa
Ano: 1988

Sinopse: Lucrécia e dom Rigoberto vivem em constante felicidade. Ela, uma mulher que acaba de completar 40 anos, nada perdeu da sua elegância e sensualidade; ele, no segundo casamento, descobriu por fim os prazeres da vida conjugal. Juntos, crêem que nada pode afetar esse idílio, cheio de fantasias e de sexo. Alfonso, ou Fonchito, filho de dom Rigoberto, parece ser o único empecilho; ama demais sua mãe, Eloísa, para aceitar a chegada de uma madrasta. Mas até ele acaba por ser conquistado pelos encantos de dona Lucrécia. O amor do menino pela sua madrasta, entretanto, vai muito além do que se esperaria de uma criança, desenhando uma linha ténue entre a paixão e a inocência que mudará o destino de cada um deles.
Elogio da Madrasta é a história de um universo dominado por um triângulo inquietante, que pouco a pouco envolve os leitores na rede de subtil perversidade que une, na plena satisfação dos seus desejos, a sensual Lucrécia, Rigoberto e o filho. (in Wook)

Lucrécia é a esposa de dom Rigoberto e madrasta de Alfonso, mais conhecido por Fonchito, fruto do anterior casamento de Rigoberto com  Eloísa. Nos primeiros tempos, a relação dos três corria sobre feição. Lucrécia e Rigoberto viviam dias felizes e uma sexualidade completa e sem tabús. Alfonso nutria um enorme carinho pela madrasta e esta correspondia-lhe em igual medida. No entanto, Alfonso não é um menino tão inocente como aparenta e acaba por interferir-se da pior forma na relação do pai e da madrasta...

- Vou dizer-te uma coisa que não sabes, madrasta - exclamou Alfonso, com uma luzinha vibrante nas pupilas. - No quado da sala és tu.
Tinha a cara arrebatada e alegre e esperava, com um meio sorriso pícaro, que ela adivinhasse a intenção oculta no que acabava de insinuar.
(extracto retirado da pág. 117)

Nunca é demais dizer o quão impressionante é poder ler obras de autores capazes de pegarem em temas simples e montarem uma história com vida e capaz de cativar o leitor, mantendo-o agarrado ao livro. Nesta obra, o ponto forte são os personagens, representados por uma família pouco convencional e uma empregada, e as interações entre eles.

No quarto de Lucrécia e dom Rigoberto não existem inibições, os prazeres da carne são elevados ao expoente máximo e o acto de satisfazer e deixar-se satisfazer são as únicas regras.
Alfonso, um menino mais "crescido" que a sua idade, é um lobinho em pele de cordeiro e sabe bem como dar a volta aos outros, sempre com a sua disfarçada inocência de criança.

Através da outra paixão de dom Rigoberto e da obsessão de Alfonso pelo austríaco SchielleVargas Llosa, através das gravuras e quadros do pintor que introduzem os capítulos, faz o paralelismo entre o enredo e o erotismo de Lucrécia, em particular, e de todas as mulheres, em geral.
Amor. Paixão. Arte. Erotismo. Romance. Traição. Família. Inocência.

Há uns dias li algures que se alguém quiser ler uma obra erótica que leia Elogio da Madrasta, em vez daquela palhaçada da meia centena de sombras de Grey. Não podia estar mais de acordo.
(4/5)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Outono do Patriarca

Título original: El otoño del patriarca
Género: Romance Histórico
Autor: Gabriel García Márquez
Ano: 1975

Sinopse: Quando os revolucionários entram no enorme palácio em ruínas encontram o corpo do ditador em decomposição numa emaranhada anarquia onde se misturam o passado e o presente. Um presente já perdido e desfeito, um passado de uma riqueza inimaginável num palácio pejado de ministros, guarda-costas e criados que mantinham o ditador precariamente equilibrado no poder, e também uma imensidão de mulheres e crianças e um sósia cuja perfeição provocava graves crises de identidade em ambos. A atmosfera é de sonho, mesmo de pesadelo, real, vibrante e sensualmente exacta, ao mesmo tempo vaga e inacreditável.
Um romance extraordinário, uma escrita densa, rica e brilhante por um dos mais originais e dotados escritores do nosso tempo.. (in Wook)

O papel principal deste enredo pertence a um ditador solitário, tirano e autoritário, que é o governante máximo de um país da região do Caribe há tantos anos que até os seus habitantes já lhes perderam as contas. Os acontecimentos são narrados, na sua maioria, a partir da residência do presidente numa atmosfera no mínimo peculiar. Se dar de caras com gabinetes de ministérios ou funcionários da presidência é normal e expectável, o mesmo não se poder dizer em relacção ao conjunto de animais que por lá passeam, como vacas, galinhas e outros pássaros.
Esta é a história de vida e morte de um patriarca sem nome e de quem apenas se sabe a idade aproximada: entre 107 e 232 anos.

(...) nem nas borras do café, nem em nenhum outro meio de averiguação, só naquele espelho de águas premonitórias em que se vira a si próprio morte de morte natural durante o sono no gabinete contíguo à sala de audiências, e vira-se caído de borco no chão como tinha dormindo todas as noites da vida desde o nascimento, com o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro, o braço direito dobrado debaixo da cabeça, para lhe servir de almofada, e numa idade indefinida entre os cento e sete e os duzentos e trinta e dois anos.
(extracto retirado da pág. 69)

No nosso mundo, tal como o conhecemos nos dias que correm, o país do ditador de quem se fala não existe. No entanto, toda a sua estrutura governamental, baseada num regime ditatorial onde imperam a corrupção, a manipulação, a perseguição, etc., fácilmente encontra correspondentes em países e ou governantes da América Latina.

Através destas poucas linhas, o leitor é levado numa viagem ao fantástico mundo de Gabriel García Márquez, onde não faltam personagens únicos e peculiares sempre confrontados com vivências e experiências improváveis. Desafiando a lógica, mas sempre com uma veia crítica, o autor conta as suas histórias através de personagens singulares e dos enredos mais "estapafúrdios".

A leitura não foi uma tarefa muito fácil devido aos enormíssimos parágrafos, alguns sem sinais de pontuação, onde o leitor tanto podia estar perante a descrição de determinada acção ou lugar, como de um diálogo entre dois personagens.
É o livro do autor que menos gostei.
(3/5)

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